Publicado por: Raphael Godoy | 18 fevereiro , 2010

Briga de Casal

Este vai estar no livro Escritos Esparsos que será lançado dia 18 de Março. 😀

Pode levar. Pode levar os discos, os livros, as roupas. Ou melhor, os discos não, são meus, coleciono-os desde antes de te conhecer , o resto que leve embora. Não adianta me olhar com essa cara de “o que foi que eu fiz?”, você sabe muito bem o que você fez. Não, não me refiro àquela vez que você saiu com aquela sua amiga, “Deise sei lá o quê” e chegou lá pelas tantas da madrugada. Ah, sim, você sabe do que estou falando e sempre soube que não sou homem que atura esse tipo de vagabundagem.

Nem adianta vir com essas desculpas esfarrapadas, bebi demais, eu fui fraca ou qualquer bobagem dessas, eu te conheço, e não é de hoje, para saber muito bem que você não faz nada antes que pense bastante no assunto. Pois bem, desta vez pensou errado. Junte suas coisas e volte para casa da sua mãe. Bendito o dia que fui te tirar de lá. Meus amigos me avisaram, falaram, mas eu acreditei? Não, preferi escutar o coração. Que bonitinho. Um homem de 30 e poucos anos acreditando no amor e que ele tudo suporta. Amor o escambau.
Foi tudo lindo, do jeito que você sempre quis, igreja, padre que fala outra língua (acho que ele foi o único que entendia alguma coisa na cerimônia), florista, dama-de-honra, pajens, até aceitei seu cachorrinho (aquela praga) entrar com a aliança amarrada no pescoço, para mais tarde devorar meu sapato comprado exclusivamente pro casamento. E lá estávamos nós, diante de um altar, com o padre que murmura algo incompreensível, jurando fidelidade e amor eterno. Quanta inocência para duas pessoas calejadas pelos relacionamentos.
Claro, a parte do “prometo amar-te e respeitar-te” você não deve ter escutado, graças ao padre que VOCÊ escolheu. Tá bom, tá bom. Paro de implicar com aquele padre, mas que você deveria ter prestado mais atenção a estas palavras isso devia. Nem quando você ficou enorme daquele jeito depois da gravidez, eu olhava pro lado. Passei meses comendo vegetais e outras coisas sem gosto pra te apoiar na dieta, e enfim vencemos, você perdeu aqueles 20 quilos. Tá bom, 18, que seja. E eu, se não fossem os hambúrgueres e outros engordativos escondidos, tinha desaparecido da face da terra.
E aonde você pensa que vai? Não vai relutar, não vai tentar se explicar, me convencer a deixar você ficar? Ótimo, melhor assim, deste jeito você me poupa de ouvir essas desculpinhas e seu “mimimi’ insuportável. Por falar em “mimimi”, faça-me o favor de apagar aquela mensagem horrorosa da secretaria eletrônica. Por que, quando a gente tá apaixonado, fica parecendo com um adolescente estúpido?
Como assim, só mais cinco minutos? Você vai ficar aqui até eu acabar, ou tá achando que vou ficar com alguma coisa entalada aqui. Prefiro falar tudo agora e nunca mais precisar olhar na sua cara de novo. Por falar em cara, depois a gente vê como fica aquela grana que você pegou pra fazer botox e não sei mais o quê. Não sei que necessidade é essa de querer ficar toda esticada. Você até estava muito bonita antes. Não me venha com essa cara de surpresa porque te elogiei, sempre fiz elogios, você sabe como eu sou.
Não dê as costas pra mim, eu já avisei, que você vai ouvir tudo. Não vai restar nada, por falar nisso, a sua filha tá ficando igualzinha a você. Cada dia é um carinha novo ligando, não sei mais o que faço com essa menina. Não demora e já está todo mundo comentando. Pelo menos sei a quem ela puxou. Quer saber? Me dá nojo olhar pra sua cara, pode ir embora, mas vá rápido. Te ajudar com as malas? Você tá brincando comigo, né!? Se vira, quando fez o que fez, não precisou de minha ajuda. Vai lá, vai pedir ajuda pro Armando.
Como assim, ele tá na porta esperando? Você não pode me deixar, eu que tenho que mandar você embora. Mande ele embora agora, que hoje você não sai de casa. Capaz que vou aceitar ser corno e trocado no mesmo dia, de forma alguma. Você fica, o Armando vai e amanhã te expulso de casa de novo. Até te ajudo com as malas. Mas você vai pra casa da sua mãe.
Não vai aonde eu mando?! Pare de besteira, quer saber? Vou fazer melhor, você fica e eu não te dou o divórcio. Você vai comer o pão que o diabo amassou, dia após dia, esse vai ser seu pagamento pelo que fez comigo. Não sou homem que atura esse tipo de vagabundagem. Eu sei que já disse isso com as mesmas palavras, não precisa me lembrar. Agora vai lá, desfaça essas malas e faz a janta. Ou melhor, janta não, hoje vamos comer pizza quatro queijos, é o que tem pro jantar.
O que está esperando? Coma logo, vai esfriar, aí vai ficar ruim e você não vai comer. Já sei, tem um resto de frango desfiado do almoço, vou esquentar e colocar pra você comer, vai ficar uma delícia. Não falei? Sente o cheiro, agora coma tudo. Esta discussão foi desgastante. Tome banho no outro banheiro, hoje você dorme no quarto de Bianca, ela saiu com o namorado e até agora não voltou. Que droga, mais essa! Cadê essa menina? Marta, ache sua filha agora e mande-a voltar pra casa. Aonde vai com a chave do carro? Use o celular, mulher, desta casa você não sai hoje. Pode deixar que eu ligo, vá pro quarto da Bianca que ela dorme na nossa cama e eu no sofá. Amanhã pela manhã conversamos.

O que foi, minha filha? Já é manhã? Como assim, tem um Armando esperando sua mãe aí fora. Mande ele embora, que hoje ela não vai a lugar nenhum, muito menos com alguém com um nome desses. Ele disse que sua mãe falou que poderia vir hoje? Nem hoje, nem nunca. Sua mãe fica e ponto final. Ela só vai embora no dia que eu der o divórcio, isso se EU der o divórcio. Rubem Braga já dizia que o que faz o casamento durar é o ódio entre duas pessoas, concordo com ele, e vamos até às bodas de ouro com certeza. Eu sei que faltam 30 anos, mas é o castigo da sua mãe.
O Armando de novo? Manda ele pro inferno, que sua mãe não vai embora. E daí que eles se encontraram ontem à noite? Problema o deles, mas até que eu NÃO queira mais, sua mãe é minha esposa, e esposa minha não deixa minha casa. Não sou homem que atura esse tipo de vagabundagem.
– E assim o tempo passou. Marta continuava se encontrando com Armando. Bianca continuava saindo às escondidas. E ele, continuava sendo o homem que não atura “esse tipo de vagabundagem”. Foram felizes assim por mais 30 anos, até às bodas de ouro, quando, finalmente, Armando, já com 80 anos, pôde levar Marta embora.

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