Publicado por: Raphael Godoy | 8 fevereiro , 2010

Vivendo o passado

De novo, ele estava lá. Aquela rua lhe trazia tantas lembranças, algumas boas, outras nem tanto. Mas eram lembranças suas. O lugar parecia menor do que era quando ele saiu dali com a intenção de nunca mais voltar. As árvores eram maiores, mais coloridas e com galhos firmes que poderiam até suportar seu peso caso resolvesse subir neles. Os jardins eram mais vivos e as casas com muros mais altos, protegendo todos em seu paraíso particular. Do outro lado podia ser visto um velho banco feito com um tronco de uma árvore derrubada há muito tempo. Mas, diante daquela portão, veio a exitação.

Não sabia se ela ainda morava ali, ou se já tinha partido para outro lugar, lembrava que ela tinha planos ambiciosos. Paris, Londres, Seatle, Pequim… o país parecia pequeno demais para ela. Exitou, mas enfim acreditou. Tocou a campainha. Uma velha senhora apareceu sorrindo, ela não tinha mais do que 60 anos, mas aparentava ter muito mais, apesar da jovialidade de seu sorriso. Sorriso que ele reconheceu na hora, e retribuiu como fazia naquela época. Os olhos da jovem senhora não acreditavam quando viram aquele sorriso, aqueles olhos e a velha ajeitada na boina inseparável desde a juventude – ok, já não era mais a mesma boina, mas o gesto era inconfundível.

Ele queria perguntar, ela queria contar. Mas não sabiam como começar. Depois de tanto tempo separados, o reencontro inusitado não comportaria qualquer tipo de ensaio em frente ao espelho ou de frases feitas escolhidas a dedo. Ali ficaram em silêncio por alguns longos segundos. Trocaram olhares, sorrisos, de novo olhares, de novo sorriso. Pareciam dois paspalhos.

Ela o convidou pra entrar, ele não quis. Com a calma de quem já viveu o que tinha para viver e não tem pressa de sentir novas emoções, ele tirou um envelope dobrado do bolso. Uma carta de despedida que ele nunca teve coragem de entregar. Os olhos dela se encheram de lágrimas novamente, todo ódio alimentado pelo sumiço inexplicável parecia ter sido queimado no momento em que segurou nas mãos aquela carta.  Apesar do papel amarelado e até com alguns rasgados devido ao tempo que ficou guardado, o doce perfume da juventude ainda podia ser sentido (ou era apenas naftalina?).

Ela lia e se emocionava, tudo em que acreditou durante anos era uma mentira. Ali estava o verdadeiro motivo pelo sumiço repentino, pelos anos separados, pela falta de notícias de seu amado. Ali estavam as razões que a fizeram odiá-lo e casar-se com um “rival” dele. Enfim, tudo que ela queria saber. Não havia outra, nem o amor havia acabado. Tudo não passou de um mal entendido. Maldito mal entendido, diga-se de passagem.

Fizeram as pases, e mataram a saudade com um longo abraço, interrompido apenas por uma dor no braço que a acompanhava há uns 5 anos. Ele se virou e foi embora. Não quis saber o que aconteceu com ela, os motivos por ela ter se casado com outro, ou ainda, porque estranhamente, o filho mais velho levava o seu nome. Não quis saber porque ela não se mudou, nem tampouco, os motivos pelos quais ela o perdoou. Enfim, se sentiu livre, para voltar para os braços de sua mulher e filhos. Se sentiu livre de um compromisso que nem o casamento conseguiu desfazer.

Então, sorrindo e cantarolando uma velha canção ele entrou no seu carro e partiu. Desta vez, sem preocupações, sem remorços e sem culpa.

Ela voltou para dentro chamando pela empregada e já passando as instruções para fazer um bolo para comemorar aquele momento. Mesmo que a comemoração fosse silenciosa e apenas dentro do seu coração, ela achava que merecia isso.

E eu, assim como você, fico sem saber os motivos para tudo isso. De onde estava sentado, isso foi tudo o que consegui ver. Mas do que adiantaria saber a razão de tanta felicidade, se nem as minhas eu consegui encontrar.  E ali eu fiquei sentado, com um envelope nas mãos, sentado num banco de madeira feito com um tronco de árvore há pouco tempo cortado. Fiquei observando o portão, com um envelope perfumado nas mãos, tentando saber o que dizer antes de ir embora. No fim, preferi ir embora, na certeza de que um dia tudo iria se resolver, e eu poderia enfim viver sem preocupações, remorços ou culpa. Fui embora, na certeza de que um dia voltaria. Só guardava a dúvida se ela me esperaria. Afinal, ela tinha planos ambiciosos. Paris, Londres, Seatle, Pequim… o país parecia pequeno demais para ela.

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