Publicado por: Raphael Godoy | 19 novembro , 2008

Namorinho de Portão

(Inspirado na música de mesmo nome do cantor e compositor Tom Zé)
Não me lembro agora, se era uma quinta ou sexta-feira. Estava saindo do cursinho e como de costume, voltei para casa com Joana, que tinha seus 16 anos. Ela não era a mais inteligente das mulheres, e era cheio de futilidades, era um tal de Paris pra cá, sapato de mocassim para lá, chapéu importado acolá que não acabava mais. Mas ela era linda. Naquele dia, ficamos conversando alguns minutos em frente ao portão de sua casa, sempre evitei ficar por ali, para evitar suspeitas de namoro, mas resolvi ficar, talvez já fosse hora de tentar algo sério.

Enquanto nos beijávamos, alguém se debruçava na janela, devia ser seu irmão ou primo, sei lá. Fingimos que não o vimos e continuamos o namoro. De repente, a janela foi se enchendo de gente, era avó, mãe, sobrinho, primo, outro irmão, mais um primo. Logo vi, que por ali filme bom era censurado na alta.

Lá de dentro se ouvia uma voz, era a outra avó que trazia em suas mãos uma bandeja com biscoitos e café.
– Joana, chama seu namorado para entrar, o café ta quentin.

Naquele momento estávamos dando mais IBOPE que final de Copa do Mundo. A velha gritou tão alto que chamou atenção da vizinhança inteira.

Fomos para dentro da casa, afinal, já era oficial: A Joana está namorando e o namorado era eu. Quando entro, lá está o coroa, com cara de o Poderoso Chefão sentado em sua poltrona de couro. Mal vou entrando e ele já começa:

– Seu nome, sua idade, sua filiação e o que pretende da vida!
Quase gritando, e com medo de errar as respostas fui atropelando tudo:
– Anestor Salgado tenho 17 anos, minha mãe é borracheiro e meu pai dona de casa e eu pretendo sair vivo daqui!
– Peraí, sua mãe ou seu pai é borracheiro?
– (é uma pegadinha é?!) Minha m… quer dizer, meu pai.
– Você parece ser um bom rapaz. Você trabalha? Quanto você ganha?
– Er… peraí, uma de cada vez para não embolar. Eu não trabalho, mas meu pai me da 40 real por meis.
– É meu jovem. A vida não está fácil não. Você sabe quanto custa para manter uma família?
– 100 real?!
– Não, bem mais que isso, nem com a mesada do ano inteiro você mantém uma família.
– Também, com tanta gente morando junto…
– O que você disse?
– Também a gente ta pagando tanto juros.
– Isso mesmo. Deixa eu te dar um conselho.
– Não tenho escolha mesmo… vai lá. (correção: eu não disse isto, só pensei)
– Invista em gado. Você vai precisar de dinheiro, então invista em gado. Na minha época eu não investi, me dei mal. Mas invista você. Por falar em passado, na minha época, namoro não era assim não…

Duas horas depois o velho concluía sua visão caótica do mundo moderno.
– … é por isso que eu digo pra você, invista em gado, porque senão quando você se casar com a Joana, vai passar dificuldade.
– Casar?! Eu!? To fora, tio…
– Como assim não vai casar?
– Sei lá, ta cedo, mal comecei namorar com sua filha.
– Mas namoro é pra casar. Comigo foi assim, com meu pai também e com o pai do meu pai também.
– É tio, mas é que são tantas mulheres que casar é desperdício e a Joana nem é mulher pra vida toda não.
– Ta achando que minha filha é o que?! Agora você vai ver o que é bom, muleque.

Saí correndo, com o coração a mil, o meu ex-futuro-sogro ficou uma fera, e saiu correndo atrás e o quarteirão não teve outra distração, senão a 1ª Caça ao Anestor. O velho se cansou primeiro, e enquanto eu sumia dali ainda escutei ele se lamentar por mais de uma vez:

– Bom rapaz, direitinho. Deste jeito não tem mais.

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