Publicado por: Raphael Godoy | 13 novembro , 2008

Pista de Caminhada

Engana-se aquele que pensa que essa é mais uma estória de amor juvenil. Ele, baixo, gordo e careca, aparentava 47, mas ninguém dava mais do que 44. Ela, idem, só que com mais cabelos e um pouco mais jovem, 43. Não se sabe ao certo, quando a história começou e nem quem disse o primeiro oi. Dizem por aí que eles sempre andavam em direções opostas, e sempre que se encontravam trocavam olhares.

Todo dia, fazendo chuva ou sol, frio ou calor, lá estavam os dois. Um indo ou outro vindo. Após algum tempo começaram a conversar:
– Lindo… dia… não!
– Pois é…

A conversa acabava aí e continuava no dia seguinte. Mas, você deve estar pensando: porque eles não combinam de caminhar juntos? Estava aí o grande problema. Ele por duas vezes já havia pensado em acompanha-la, mas ficava com medo de não conseguir acompanhar o ritmo e logo desistia da idéia. Ela, já achava que a iniciativa teria de ser dele, afinal, ela não achava correto uma dama como ela se oferecer de tal maneira. E a conversa continuava e sempre ele iniciava a conversa:
– Você quer sair comigo?
– Vou pensar…

E noutro dia:
– Aceita?
– Tudo bem.

Depois de 2 semanas combinando a saída, eles estavam prontos para enfim terem uma conversa que durasse mais que alguns segundos. Ele teve alguns problemas para esconder seu pequeno segredo, a calvície, pois sempre caminhara de boné, e boné não combina com um jantar romântico. Já ela, não sabia mais o que fazer para esconder os pneuzinhos que eram disfarçados pela camisa de malha larga.
Depois de horas brigando com os poucos fios de cabelo e ela brigando contra sua anatomia, estavam realmente prontos. Ele então liga para ela:
– Já estou indo te apanhar.
– Tudo bem, estou te esperando.

Esta tinha sido a conversa mais longa deles, desde o primeiro oi. Cada um pronunciou mais de 4 palavras e ambos já imaginavam quanto teriam para conversar. Dentro do carro, nenhum dos dois falou nada, apenas ficaram escutando o CD “ O Melhor do Rock 70”, comprado por ele, especialmente para a ocasião. Ela, fã incondicional de MPB, não gostou muito do som, mas preferiu não comentar.
Já no restaurante, a história foi outra. No início os dois estavam um pouco tímidos, quase que monossilábicos.
– Vamos sentar ali?
– Sim.
– Já veio aqui antes?
– Não
– O que quer beber?
– Vinho
– Branco ou tinto?
– Tinto

Foram-se duas garrafas de vinho e o assunto já estava ficando melhor.
– O que gosta de ouvir?
– MPB
– Da geração do Caetano?
– Sim.
– Eu não gosto. Prefiro o rock dos anos 70.
– Um ex meu também.
– Vamos deixar o passado de lado. Não somos tão jovens, mas ainda podemos viver bastante… – e começa a chorar.
– O que houve?
– Minha última ex-mulher me disse isso 2 meses antes de morrer de câncer.
– Que triste. Tem filhos?
– 7. Dois com cada esposa e um fora do casamento.
– E vc?
– 3. Todos fora do casamento, o primeiro com um cara que tava ficando no 2º grau.
– Esses romances juvenis. Eu também tive um sabia?! Ela era demais, tinha um corpo igual aquelas garrafas de coca-cola. Perfeitinha.
– Ele também era demais. Você tinha que ver, ele tinha os cabelos compridos, parecia muito com aquele vocalista de uma banda de Rock… o… Mick Jegue ou Jeaguer, sei lá. Ele era da minha escola e estava no 3º ano e eu no 1º. Me prometeu um monte de coisas, e de repente, sumiu. Nunca mais o vi.
– Que canalha. Como alguém pode fazer uma coisa dessas. Se bem que eu fui obrigado a largar essa garota, por que tava começando a rolar uma outra na época.
– E ainda por cima, nunca foi lá ver a criança, só manda dinheiro de vez em… Peraí, esse seu sorriso, eu sabia que te conhecia de alguma lugar. Em que escola você estudou?
– Er… eu… bem. Não precisa ficar tão nervosa.
– Diga logo, ou você vai ver o que é ficar nervosa!
– Ta bom, no Colégio do Padre Klaus.
– Ah… o Padre Klaus, ele e seus xingos naquele dialeto indecifrável, quem não se lembra… Peraí de novo… Antonio Carlos?
– Valquiria?
– Antonio Carlos, seu safado, como você pode fazer isso comigo seu canalha…

Depois de alguns minutos, ambos foram expulsos do restaurante. Antonio, hoje, não caminha mais no mesmo local e Valquiria continua caminhando a procura do pai de seus dois outros filhos.

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Responses

  1. rsssss
    cada geração uma cruz…


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